"Sentia-me agora outra vez calmo.Estava enfadado e deixei-me cair sobre a cama.Jul-
go que dormi,pois acordei com estrelas sobre o rosto.Subiam até mim ruídos campesi-
nos.Aromas de noite,de terra e de sol refrescavam-me as têmporas.A paz maravilhosa desse verão adormecido entrava em mim como uma maré.Neste momento,e no limite da noite,soaram apitos.Anunciavam possivelmente partidas para um mundo que me era para sempre indiferente.Pela primeira vez,havia muito tempo,pensei em minha mãe.Julguei ter compreendido porque é que,no fim de uma vida,arranjara um "noivo",
por que era que fingira recomeçar.Também lá,em redor desse asilo onde as vidas se apagavam,a noite era como uma treva melancólica.Tão perto da morte,a minha mãe deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo reviver.Ninguém,ninguém tinha o direi-
to de chorar por ela.Também eu me sinto pronto a tudo reviver.Como se essa grande cólera me tivesse limpo do mal,esvaziado da esperança,diante dessa noite carregada de sinais e de estrelas,eu abria-me pela primeira vez à terna indiferença do mundo.Por o
sentir tão parecido comigo,tão fraternal,senti que fora feliz e que ainda o era.Para que tudo ficasse consumado,para que me sentisse menos só,faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebes-
sem com gritos de ódio."
(Albert Camus)
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