domingo, 18 de setembro de 2011

APONTAMENTOS LXXIV

        É dia.Parece que há sol,o que podemos confirmar com a sombra que se projeta na calçada.A posição da sombra também nos diz que o sol bate forte e diretamente nas imagens que estamos a contemplar.Todos verão o mesmo dia.O mesmo sol nas sombras.As mesmas imagens.Diferente poderá ser o plano ou os planos,a ordem do olhar que sugere as figuras de acordo com sua particular percepção.O olhar de quem vê segue o que vê e quem vê.
        As grades.Grades negras,grossas,fincadas no indefinível,cortadas pelo limitado espaço.Podem estar em uma portajanela,portão de uma casa ali postas para guardar,protrger o que dentro está:bens.Objetos,pesso -
as,vidas.Em outra hierarquia,protegem o que está fora,os
mesmos bens,objetos,vidaspessoas de outras pessoas,fin -
cadas no definido e exíguo espaço dado e merecido aos não-gente,trancados,exilados do dia e do sol,sombras de quem eram antes de ser escória.
        Embora negras,embora grossas,podem,ainda,preservar uma praça planejada para a liberdade,árvores,canteiros co-
loridos e,ainda em outra possível hierarquia,algo dispensá-
vel,dinheiro desperdiçado aos públicos cofres,de serven  -
tia explicada para espantar bêbados,preguiçosos,gente su-
ja que não merece estar na mesma passarela que gente de bens.
        Vistas assim, essas grades parecem a grande contradi -
ção ao que se destina a imagem ou a melhor adequação para a mesma ,pois não sabemos se impedido ou por elas protegidas mãos fortes e olhar profundo de um homem,seu
perfil centralizado no todo que o quadro apresenta e nos é impossível concluir porque surgiram as grades negras num dia pleno de vida,cores e sol.
(Rosângela Benati)

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